Esta é uma versão extraordinária da previsão de mercado. O dólar comercial é negociado a R$ 5,520 nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, alta de 10,55%, depois de fechar a sexta-feira a R$ 4,9931. A máxima do dia chegou a R$ 5,6049, alta de 12,25%. O Ibovespa abriu em queda de 16,88% e a B3 precisou suspender os negócios por 30 minutos com o acionamento do circuit breaker. O gatilho foi a reeleição de Lula no segundo turno, resultado que contrariou as pesquisas. Esta é uma edição extraordinária da Rede Câmbio Seguro, porque o cenário mudou de direção em um único pregão.
O que aconteceu
Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de mais de 4,3 milhões de votos. O mercado vinha precificando o cenário oposto: o senador havia vencido o primeiro turno e liderava as pesquisas de segundo turno por 52% a 48%.
A violência da reação não se explica só pela surpresa, mas pelo posicionamento. Uma pesquisa do Citi com gestores de fundos, feita antes da votação, mostrava que cerca de 80% deles esperavam queda superior a 5% no Ibovespa caso Lula vencesse. Quando o resultado saiu, praticamente todo o mercado precisou desmontar a mesma posição ao mesmo tempo, e não havia contraparte do outro lado. O Ibovespa futuro chegou a operar sem ofertas de compra registradas no livro.
Os números do estresse
- Dólar: alta de 10,55%, a R$ 5,520, com máxima de R$ 5,6049 (+12,25%). A B3 elevou o limite de oscilação do dólar futuro de 6% para 12%, apenas para esta segunda-feira.
- Ibovespa: abertura em queda de 16,88%, aos 170.461 pontos, perda de mais de 34 mil pontos. O circuit breaker foi acionado na primeira hora de pregão, com 30 minutos de suspensão. O próximo limite é queda de 15%, que pararia os negócios por uma hora.
- Real em Chicago: caiu cerca de 10% contra o dólar nos futuros da CME ainda durante a madrugada.
- Ativos brasileiros no exterior: o ETF EWZ, que replica ações brasileiras em Nova York, recuou cerca de 18% no after-hours e chegou a cair mais de 30% pela manhã. Um fundo de Ibovespa listado em Tóquio caiu 11,8%.
- Juros futuros: o DI para janeiro de 2027 foi de 13,48% para 14,01%. O de janeiro de 2031 saltou de 12,58% para 14,46%, e o de janeiro de 2033, de 12,65% para 14,58%. A curva, que estava invertida na sexta-feira, voltou a inclinar, e o mercado tirou do preço os cortes da Selic.
O que o mercado está cobrando
A leitura central é fiscal. Como resumiu o estrategista do ING, o quadro fiscal sempre foi o calcanhar de Aquiles do Brasil. A Monte Bravo avalia que a reeleição exige uma reavaliação do prêmio de risco dos ativos brasileiros. A Ágora Investimentos pondera que o Banco Central pode intervir no câmbio e que o que vai determinar a duração deste movimento de aversão a risco é a montagem da equipe econômica e os primeiros sinais de política fiscal.
Vale um registro de contexto: o Wells Fargo projetava o dólar a R$ 5,30 em caso de vitória de Lula, e avalia que fatores externos e o carry trade podem voltar a sustentar o real adiante. Ou seja, nem todo o mercado trata o patamar de hoje como o novo equilíbrio.
Acumulados da semana, do mês e do ano
- Dólar (R$ 5,520): semana +10,55% · mês +6,69% · ano +0,57%.
- Euro (R$ 6,17): semana +9,41% · mês +5,04% · ano -4,60%.
- Libra (R$ 7,36): semana +10,20% · mês +7,39% · ano +0,35%.
- Iene (R$ 3,51 por 100 ienes): semana +10,87% · mês +6,73% · ano +0,09%.
- Ouro (US$ 4.017 a onça): semana +0,58% · mês -3,81% · ano -6,76%.
Semana: desde o fechamento de sexta-feira (23/10). Mês: base do fechamento de 30/09. Ano: base do fechamento de 31/12/2025. Dólar e euro com fechamento e PTAX do Banco Central; libra e iene estimados por paridade com o dólar comercial. Em um único pregão, o dólar zerou toda a queda acumulada no ano, que chegou a ser de 9,5% em 6 de outubro.
Euro, libra e iene: todas dispararam
O euro está em R$ 6,17, alta de 9,41% em um dia. Foi a menor subida do quadro, porque a moeda europeia também está fraca no exterior, com o par EUR/USD recuando para 1,1181. Ainda assim, voltou ao patamar de agosto.
A libra subiu 10,20% e está em R$ 7,36, rompendo os R$ 7,00 pela primeira vez desde janeiro. O iene teve a maior alta do quadro, de 10,87%, a R$ 3,51 por 100 ienes: por ser moeda de refúgio, ele ganha duplamente em dia de aversão a risco.
Para quem tem viagem programada, a janela de setembro e outubro foi perdida. Mas comprar tudo no pico de um dia de pânico é o erro clássico. O mercado costuma devolver parte do exagero nas sessões seguintes.
Ouro: a tese de proteção se provou
O ouro está em US$ 4.017 a onça, com alta de 0,58% no dia. Na sexta-feira chegou a tocar US$ 3.975, o menor nível em mais de três meses. No acumulado do ano, ainda cai 6,76% em dólar.
Em reais, porém, a história é oposta. A grama saiu de R$ 664 na edição de 20 de outubro para cerca de R$ 713 hoje, alta de 7,4% em seis dias, movimento provocado inteiramente pelo câmbio. É exatamente para dias como este que o ouro existe em carteira: enquanto a Bolsa caía 17%, o ouro em reais subia.
- Quem já tem: manter. A função de proteção cumpriu o papel.
- Comprar agora em reais: não. O preço da grama está inflado por um câmbio em pânico. Quem quer montar posição ganha esperando o dólar estabilizar, mesmo que o metal suba um pouco em dólar nesse intervalo.
- Paridade em reais: cerca de R$ 713 por grama (US$ 129,15 x R$ 5,520). Paridade convertida Bolsa NY. Não é o valor utilizado nas operações.
Remessas internacionais: não corra atrás do preço
Com o dólar a R$ 5,520, uma remessa de US$ 1.000 para investimento sai por cerca de R$ 5.581, já com o IOF de 1,1% e sem considerar o spread da operação. Na edição de 20 de outubro, o mesmo cálculo dava R$ 5.064. São R$ 517 a mais por mil dólares em seis dias. Para importadores e empresas optantes pelo Simples Nacional, o IOF segue em 0% na maioria dos casos.
A orientação da edição de 20 de outubro foi travar o câmbio até sexta-feira, porque o cenário favorável já estava em boa parte no preço e a reação de segunda seria assimétrica. Quem travou a R$ 5,00 economiza cerca de 10% sobre o valor travado.
Para quem não travou, a recomendação é não correr atrás. Comprar no meio de um pregão com circuit breaker acionado e liquidez reduzida é a pior decisão possível. Se a remessa não é urgente, espere a semana virar. Se for urgente, divida em duas ou três operações ao longo dos próximos dias, para não concentrar tudo no pico.
O que esperar nos próximos dias
- Esta semana: atuação do Banco Central. Analistas esperam venda de dólar à vista ou leilão para dar liquidez ao mercado. Também entram no radar os primeiros sinais sobre a montagem da equipe econômica.
- Quarta (28): decisão do Federal Reserve, com expectativa de manutenção dos juros. Para dezembro, o mercado vê mais de 80% de chance de alta. No Brasil, o Copom volta a se reunir em novembro.
- Quinta (29): índice PCE nos Estados Unidos, a medida de inflação preferida do Fed. No Brasil, dados fiscais e fluxo cambial do Banco Central.
- 3 de novembro: eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, mais um fator de volatilidade global. O Boletim Focus deve revisar todas as projeções: dólar, Selic e IPCA.
Veredicto do dia
Não compre no pânico. O dólar está sendo negociado em condição de estresse, com liquidez reduzida e circuit breaker acionado, e esse tipo de pregão costuma exagerar na primeira reação. Quem tem remessa urgente deve dividir em duas ou três operações ao longo da semana. Quem pode esperar, espere a equipe econômica ser anunciada. No ouro, manter quem já tem e não comprar em reais neste momento.
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