O petróleo Brent encosta em US$ 100 o barril nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, depois de um fim de semana marcado por nova troca de ataques entre Estados Unidos e Irã. Ao mesmo tempo, o payroll — relatório mensal de emprego dos Estados Unidos — surpreendeu na sexta-feira com força bem acima do esperado. Apesar dos dois fatores, que normalmente pressionariam o dólar para cima aqui, a moeda americana recuou para R$ 5,12. Os especialistas da Rede Câmbio Seguro explicam abaixo por que isso aconteceu e o que fazer.
Irã e EUA voltam a trocar ataques: petróleo mais perto de US$ 100 em meses
No fim de semana, o Irã afirmou ter atacado uma embarcação não tripulada dos Estados Unidos que tentava entrar no Estreito de Ormuz — o canal marítimo entre o Irã e a Península Arábica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Os militares americanos negaram a informação.
O Brent chegou a US$ 99,45 na madrugada desta terça-feira, o maior nível em meses, depois de acumular alta de 8% na semana passada. O contrato futuro WTI, referência americana, subiu para perto de US$ 94. Autoridades iranianas foram além: o presidente do Parlamento do país, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou que instalações de energia ligadas a interesses americanos no Golfo poderão ser alvo de represálias em caso de nova ofensiva.
Um quinto de todo o petróleo consumido no mundo passa por Ormuz. Por isso, o mercado inteiro se reprecifica a cada novo incidente na região — e analistas da Kotak Securities alertam que uma interrupção sustentada no fluxo real de petróleo poderia levar o preço rapidamente acima de US$ 100.
Payroll surpreende: 162 mil vagas contra 56 mil esperadas
O payroll é o relatório mensal de emprego dos Estados Unidos, divulgado toda primeira sexta-feira do mês e considerado um dos indicadores mais observados do mundo. Na sexta-feira, ele mostrou a criação de 162 mil vagas em agosto, quase três vezes a expectativa de 56 mil colhida pela Reuters.
O dado de julho, que havia mostrado perda líquida de 23 mil vagas — a primeira leitura negativa em meses, que chegou a alimentar a narrativa de uma economia americana desacelerando —, foi revisado para um ganho de 21 mil postos. A taxa de desemprego ficou em 4,1%, em linha com o esperado, e os salários desaceleraram para uma alta anual de 3,1%.
A leitura do mercado foi de que a economia americana está mais resiliente do que se temia. Isso é relevante porque o Federal Reserve, o banco central americano, decide juros nos dias 15 e 16 de setembro. Emprego forte costuma sustentar pressão salarial, que alimenta a inflação de serviços — e o presidente do Fed, Kevin Warsh, já vinha sinalizando foco na inflação. Ainda assim, os dados de CPI e PPI (inflações ao consumidor e ao produtor) que saem nos próximos dias podem pesar mais na decisão final do que o próprio payroll.
O paradoxo da semana: o real ganha força mesmo com o risco em alta
Normalmente, petróleo mais caro e economia americana mais forte formam uma combinação que pressiona o dólar para cima no Brasil. Não foi o que aconteceu esta semana: a moeda caiu de R$ 5,20 para R$ 5,12, e o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, teve sua segunda melhor semana do ano, com alta de 5,4%, puxada pela volta de investidores estrangeiros.
O motivo é doméstico. Pesquisas eleitorais mais recentes mostram um empate técnico mais acirrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Segundo analistas de câmbio consultados pela imprensa, o mercado está lendo essa disputa mais equilibrada como sinal de maior disciplina fiscal em 2027 — o que reduz, por ora, os prêmios de risco embutidos no preço dos ativos brasileiros.
É importante frisar que isso não elimina o risco do petróleo: apenas mostra que, neste momento específico, o fator doméstico está pesando mais no câmbio do que a tensão geopolítica lá fora. Esse equilíbrio pode se inverter rapidamente se a situação em Ormuz piorar.
Boletim Focus: dólar travado, inflação cede pela segunda semana
O Boletim Focus é a pesquisa semanal do Banco Central com mais de cem instituições financeiras, que reúne a projeção média do mercado para dólar, juros, inflação e crescimento econômico. A edição de segunda-feira manteve a projeção do dólar em R$ 5,20 para o fim de 2026 e a Selic — a taxa básica de juros brasileira — em 13,75%.
A projeção do IPCA, a inflação oficial, caiu de 5,01% para 5,00%, a segunda queda semanal seguida. Já a estimativa do PIB, que soma tudo o que o país produz, subiu de 1,92% para 1,93%. O sinal geral é de estabilidade na leitura dos economistas, mesmo com toda a volatilidade vinda do exterior.
Iene no maior valor em sete meses: Japão fica mais barato
Entre as moedas fortes, o destaque da semana é o iene japonês, que se valorizou com força: o dólar caiu para 154 ienes, o menor nível desde fevereiro. O movimento é puxado pela expectativa de que o Banco do Japão continue apertando sua política monetária, o que atrai capital de volta ao país.
- Iene: cerca de R$ 0,0333, cerca de 1,9% mais barato que na semana passada. Melhor momento do período para quem vai ao Japão.
- Euro: cerca de R$ 5,96, negociado a US$ 1,163 no mercado internacional. Recuou levemente, acompanhando o alívio geral do dólar.
- Libra esterlina: cerca de R$ 6,92, a US$ 1,351. O Banco da Inglaterra só decide juros no dia 17 de setembro, sem grandes sinais de mudança até lá.
Ouro em US$ 4.400: estabilizando depois do payroll forte
O ouro está cotado a cerca de US$ 4.400 a onça, buscando equilíbrio depois de recuar com a força do payroll de sexta-feira, que reacendeu a aposta de alta de juros pelo Federal Reserve. O metal segue 21,4% abaixo do recorde histórico de US$ 5.597, registrado em 29 de janeiro de 2026.
O que sustenta o piso do preço é a demanda constante de bancos centrais. O Banco Popular da China informou que comprou 650 mil onças de ouro em agosto, a maior adição mensal desde outubro de 2023, estendendo para 22 meses consecutivos sua sequência de compras — a mais longa da história da instituição. As reservas chinesas em ouro já somam 76,73 milhões de onças, o equivalente a cerca de 2.387 toneladas.
A orientação dos especialistas da Rede Câmbio Seguro segue em duas frentes. Para quem já tem ouro, manter a posição: bancos centrais não compram ouro por acaso, e o pano de fundo que sustenta o metal continua firme. Para quem quer comprar, seguir em parcelas menores — o CPI desta semana e a decisão do Fed no dia 16 de setembro ainda podem mexer bastante com o preço, para os dois lados.
Remessas internacionais: o que muda hoje
- Importadores e empresas do Simples Nacional: IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 0% na maioria dos casos. O dólar está mais baixo do que na semana passada — janela um pouco melhor para quem tem pagamento com data flexível.
- Remessa para investimento: IOF de 1,1%. Com o CPI dos EUA e a decisão do Fed se aproximando, vale manter as entradas fracionadas ao longo das próximas semanas.
- Quem exporta serviço e recebe em dólar: recebe um pouco menos reais por dólar do que na semana passada. Uma escalada do petróleo pode reverter esse cenário rapidamente.
- Quem recebe do exterior para manutenção, estudo ou família: o câmbio segue favorável frente a agosto. Fracionar as conversões ao longo do mês reduz o risco de pegar um dia ruim.
O que esperar nos próximos dias
- Ao longo da semana: CPI e PPI dos Estados Unidos, os últimos dados de peso antes da decisão do Fed.
- 15 e 16 de setembro: decisão do Federal Reserve e do Copom (o comitê que define a Selic no Brasil), na mesma semana. Se os Estados Unidos subirem os juros enquanto o Brasil continua cortando, a diferença entre as duas taxas diminui — o que tende a pressionar o real.
- 17 de setembro: decisão de juros do Banco da Inglaterra. O mercado já precifica um aperto residual, sem grande surpresa esperada.
- No radar: o Estreito de Ormuz. Uma nova escalada entre Estados Unidos e Irã pode levar o Brent acima de US$ 100; um sinal de trégua derruba o petróleo rapidamente.
- No radar: as eleições de outubro. Pesquisas mostrando disputa mais acirrada estão ajudando o real por ora, mas esse cenário pode se inverter rapidamente conforme o quadro eleitoral evolui.
Resumo do cenário
O dólar opera na faixa de R$ 5,05 a R$ 5,20 no curto prazo. A semana mostra um paradoxo interessante: fatores externos que normalmente pressionariam o dólar para cima — petróleo mais caro, payroll forte nos Estados Unidos — foram ofuscados por um fator doméstico, a leitura mais otimista do mercado sobre a corrida eleitoral. Isso não elimina os riscos externos, apenas mostra que, neste momento, o fator local pesa mais.
O ouro estabiliza depois do payroll, sustentado pela demanda constante de bancos centrais, com destaque para a China, que já soma 22 meses seguidos de compras. A recomendação prática dos especialistas da Rede Câmbio Seguro é manter a posição para quem já tem ouro e seguir comprando em parcelas menores para quem está montando posição, com o CPI e a decisão do Fed ainda pela frente.
A Rede Câmbio Seguro acompanha o mercado diariamente e publica este panorama semanalmente, com edições extraordinárias sempre que o mercado exigir. Fale com a sua unidade RCS para conhecer as taxas aplicáveis à sua operação.
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