O dólar comercial voltou a R$ 5,20 nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, depois que o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, surpreendeu o mercado com um discurso mais duro do que o esperado em Jackson Hole. O ouro, que havia batido quase US$ 4.700 na semana passada, caiu quase 6% em três dias. O euro, por outro lado, atingiu o maior valor da série contra o real. Os especialistas da Rede Câmbio Seguro acompanham o cenário de perto e explicam abaixo o que mudou e o que fazer.
O discurso que virou o jogo: Warsh surpreende com tom duro em Jackson Hole
Na sexta-feira, 28 de agosto, Kevin Warsh fez seu primeiro grande discurso como presidente do Federal Reserve no Simpósio de Jackson Hole. Uma pesquisa do Bank of America havia apontado que 69% dos gestores esperavam um tom neutro. Não foi o que aconteceu.
Warsh afirmou que os sinais de inflação ao consumidor e ao produtor não são muito animadores, e que os dirigentes do Fed vão precisar agir se a inflação não começar a ceder rapidamente. Ele também criticou o plano do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de expandir o programa de recompra de títulos longos, dizendo que políticas não convencionais devem ser usadas com parcimônia.
O mercado reagiu na hora. A probabilidade de uma alta de juros pelo Fed em setembro, medida pela ferramenta CME FedWatch, saltou de cerca de 36% para algo entre 60% e 66%. Para dezembro, a chance passou a rondar 89%. O dólar se fortaleceu no mundo todo, e o ouro, que não paga rendimento e por isso sofre quando o juro sobe, caiu com força.
Guerra no Oriente Médio volta a esquentar
No fim de semana, as forças americanas atacaram a ilha iraniana de Larak, no Estreito de Ormuz, alegando que o Irã estava preparando o lançamento de minas navais na região. O Irã retaliou, atingindo bases militares americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos — a primeira troca direta de ataques entre os dois países em mais de um mês.
Nesta terça-feira, um projétil de origem não identificada atingiu mais uma embarcação no estreito, segundo a agência britânica de monitoramento marítimo UK Maritime Trade Operations. O petróleo Brent, que vinha oscilando perto de US$ 88, subiu para cerca de US$ 91,48, o valor mais alto desde o início de agosto.
A movimentação de petróleo pelo estreito segue ocorrendo — cerca de 12,5 milhões de barris por dia, segundo relatos recentes —, o que indica que ainda não há uma ruptura completa do fluxo. Ainda assim, o prêmio de risco embutido no preço do petróleo voltou a subir, e analistas descrevem o momento como uma disputa de resistência entre os dois países, sem sinais de que qualquer um dos lados busque uma volta à guerra total.
Boletim Focus: dólar travado, mas o PIB foi revisado para baixo de novo
O Boletim Focus divulgado na segunda-feira manteve a projeção do dólar em R$ 5,20 para o fim de 2026 pela 12ª semana consecutiva — mesmo com toda a volatilidade das últimas semanas, incluindo a disparada e a correção do ouro, essa conta não mudou.
O que mudou foi a leitura sobre a economia brasileira. A projeção do PIB para 2026 caiu de 1,95% para 1,92%, a quarta revisão para baixo seguida. Já o IPCA recuou ligeiramente, de 5,02% para 5,01%. A Selic segue projetada em 13,75% ao ano para o fim de 2026, e a taxa básica de juros está hoje em 14%, após o último corte em 5 de agosto.
Euro atinge o maior valor da série contra o real
Mesmo com o dólar mais forte no mundo depois do discurso de Warsh, o euro se manteve perto da máxima de sete semanas contra o dólar americano, sustentado pela queda dos preços de energia na Europa — o que deve aliviar as pressões inflacionárias na zona do euro — e por pedidos de fábricas alemãs em junho acima do esperado.
Contra o real, o efeito foi ainda mais forte: o euro atingiu o maior valor da série, negociado a cerca de R$ 6,05. Para quem tem viagem à Europa marcada, o cenário segue sem sinal de alívio.
- Euro: cerca de R$ 6,05, maior valor da série. Segue negociado perto de US$ 1,163 no mercado internacional.
- Libra esterlina: a US$ 1,337, recuando um pouco com o dólar mais forte globalmente. Custa cerca de R$ 6,95.
- Iene japonês: foi a moeda que mais se valorizou na semana, com o dólar caindo para cerca de 153 ienes. Custa cerca de R$ 0,0339.
Ouro cai quase 6% em três dias: correção reabre a janela
O ouro está cotado a cerca de US$ 4.371 a onça, perto da mínima de duas semanas. O movimento é abrupto: depois de bater perto de US$ 4.700 na semana passada, maior nível em três meses, o metal recuou com força a partir de quinta-feira e se intensificou depois do discurso de Warsh na sexta.
Mesmo assim, o ouro segue acumulando alta de mais de 10% em agosto — o melhor mês desde janeiro, puxado pelo temor de desvalorização do dólar diante da dívida americana de US$ 40 trilhões. A distância em relação ao recorde histórico de US$ 5.597 a onça, de 29 de janeiro de 2026, voltou a quase 22%, depois de ter encolhido para 17% na semana passada.
Em reais, a paridade convertida da Bolsa de Nova York está em aproximadamente R$ 731 a grama, contra R$ 666 em 4 de agosto — valor de referência, que não corresponde ao praticado nas operações.
A leitura dos especialistas da Rede Câmbio Seguro é que a correção não muda o quadro de fundo. Os fatores que impulsionaram o ouro nas últimas semanas — a dívida americana, o programa de recompra de títulos do Tesouro e a demanda constante de bancos centrais — continuam de pé. Um discurso duro de um único dia não desfaz isso. Analistas de bancos como TD Securities e Goldman Sachs seguem projetando alvos entre US$ 4.900 e US$ 5.350 até 2027.
Na prática, a correção é uma boa notícia para quem estava esperando um preço melhor para comprar: a janela que havia se fechado bastante na semana passada voltou a abrir, sem que os fundamentos de fundo tenham mudado. Para quem já tem posição, a recomendação segue sendo manter.
Remessas internacionais: o que muda hoje
- Importadores e empresas do Simples Nacional: IOF de 0% na maioria dos casos. O dólar voltou ao topo da faixa do mês. Quem tem pagamento com data marcada deve travar agora — o payroll de sexta-feira pode mexer bastante com o câmbio.
- Remessa para investimento: IOF de 1,1%. Semana com payroll dos Estados Unidos e tensão em Ormuz ao mesmo tempo. Vale manter entradas fracionadas até sexta-feira.
- Quem exporta serviço e recebe em dólar: recebe mais reais por dólar do que na semana passada — boa janela para quem estava aguardando o câmbio subir um pouco.
- Quem recebe do exterior para manutenção, estudo ou família: câmbio favorável, no topo da faixa do mês. Vale considerar antecipar parte da remessa de setembro.
O que esperar nos próximos dias
- Terça a quinta-feira: semana carregada de dados de emprego nos Estados Unidos — JOLTS (vagas em aberto), ADP (emprego privado) e pedidos de seguro-desemprego, todos preparando o terreno para o payroll de sexta-feira.
- Sexta-feira (4/9): payroll dos Estados Unidos, o dado mais importante da semana. Um número forte reforça a aposta de alta do Fed e pode derrubar mais o ouro; um número fraco pode reverter parte da alta do dólar dos últimos dias.
- No radar: o Estreito de Ormuz, que viveu sua primeira troca de ataques diretos entre EUA e Irã em mais de um mês. Um novo incidente pode levar o Brent acima de US$ 95; um sinal de trégua alivia rapidamente.
- No radar: a independência do Federal Reserve, com o presidente Donald Trump seguindo pressão por mudanças no comitê. Qualquer notícia nessa linha tende a pesar contra o dólar e a favor do ouro.
- No radar: as eleições de outubro. O fluxo estrangeiro e os sinais fiscais seguem no radar. Planeje as operações dos próximos meses contando com volatilidade acima do normal.
Resumo do cenário
O dólar voltou à faixa alta do mês, entre R$ 5,15 e R$ 5,30, depois que o discurso de Warsh em Jackson Hole reprecificou as apostas de juros nos Estados Unidos. O Boletim Focus, no entanto, segue projetando R$ 5,20 para o fim do ano pela 12ª semana seguida — sinal de que, apesar da volatilidade recente, a leitura de médio prazo do mercado não mudou.
O ouro corrigiu quase 6% em três dias depois de bater o maior nível em três meses, mas os fundamentos que sustentam o metal — a dívida americana, o programa de recompra do Tesouro e a demanda de bancos centrais — continuam de pé. A recomendação dos especialistas da Rede Câmbio Seguro é aproveitar a correção para quem quer comprar, e manter a posição para quem já tem.
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